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quarta-feira, 15 de setembro de 2010

RESENHA: FESTIVAL LUMIÈRE @ CERVEJARIA ÓBVIO – PINDACITY – 11/09/2010

BANDAS: JANE DOPE / MAQUILADORA / EL EFECTO / VINCEBUZ / HIT CINEMA SHOW


“A de Arcade Fire
B de Beck
C de Hei Claris
Dá um teco desse mulek!


Tipo Giconda, ti-tipo Gioconda”

Foi nessa vibe “Cabeçuda” que a trip pra Pinda rolou suave ao encontro de mais um Festival Lumière, o terceiro de 2010 a acontecer na Cervejaria Óbvio – nossa casa no vale. E conforme o esperado, muita coisa aconteceu para todos os lados. Uma paz quase angelical pairava naquela esquina da Prudente de Moraes enquanto a carioca El Efecto passava o som e as primeiras almas chegavam para suas cervejas de sábado. A lua, belíssima por sinal, apontava no céu como se fosse “o gato que ri” com uma estrela brilhando forte logo abaixo do seu sorriso, impressão que remetia a um piercing no queixo da lua sorridente. Mor brisa.

Após longas e prazerosas dezenas de minutos de conversa com a amada sob esta imagem que mais parecia filme romântico ao invés de uma balada rocker, fomos advertidos que a Jane biscate abriria a sessão da noite, e qual não foi nossa surpresa ao olhar ao redor e sacar repentinamente que a casa já estava bem cheia, mesas de bilhar ocupadas, banheiros com filas mistas e o bar já sem lugar para apoiar o cotovelo! Arrastei a Fer pro backstage para afinar os instrumentos, quando na verdade a minha intenção era outra, mas isso é um pequeno detalhe.

“É o Goethe, é o Goethe, é o Goethe...
Li tudo do Leon Tolstoi, tudo do Leon Tolstoi, tudo do Leon Tolstoi
Surra de Schubert! Surra de Shubert!”


Um dos lances da noite já se deu logo de cara com a Jane Dope. Como o guita Eder não pintou pro rolê, a puta desencanou de vez e foi macho até o osso, resolvendo a fita como power-trio, e digo que funcionou pacas! O carinha esquisito que toca guita e canta e a batera que também canta (além de fazer um “maquilafreela”) se entrosaram de forma que pudessem dar de presente pra baixista Nanda uma despedida à altura da classe que esta sempre teve. Sim, foi o último show dela com a puta, fato que não impede que ela apareça em futuros shows... Enfim, fazer auto-análise é sempre uma pretensão ao egocentrismo, mas como isso nunca irá acontecer por aqui, apenas passo um recado da biscate: diz ela que já deu de 5, de 4 e adorou essa história de dar de 3! Mais cenas no próximo capítulo.


Outro lance que rolou na noite faz menção direta à Maquiladora que fez sua primeira apresentação também como power-trio (será uma tendência?) onde mostrou toda a versatilidade que esta formação mais enxuta permite num setlist rápido de 6 sons onde todo o material anterior fora suprimido em prol das novas composições, já visando este formato em trio, e isso parece ter feito muito bem para a banda, pois as músicas estão partindo para um terreno mais experimental onde elementos e divisões (principalmente rítmicas) que eram impensáveis há tempos atrás, aparecem como uma fluência natural no curriculum da banda. Tenho uma palavra simples que acaba sintetizando de uma forma bem mais prática o que está acontecendo com a Maquiladora: maturidade.


Enquanto uma galera contemplava as capturas dos fotógrafos Stéfano Martins, Carol Ribeiro e KBÇA Corneti que descansavam perto das mesas de bilhar, os rapazes sangue bom da carioca El Efecto preparavam o palco para o que estava por vir. Um verdadeiro caldeirão musical coberto de referências que vão do ska dos anos 60 ao barulho pesado dos anos 90, tudo isso temperado com muita cor de tonalidade sonora e conteúdo lírico 100% brasileiros. Agrega-se à formação clássica rocker (guita, baixo, batera) um cavaquinho, trompete e até flauta doce que fazem toda a diferença nos links em que são inseridos e tudo funciona perfeitamente bem na estética da banda. Foram muitíssimo bem recepcionados pelo público local que recebeu em troca ótimos souvenirs cariocas, que foram os sons da El Efecto.

Mais uma pausa pro chiclete quando a inacreditável Vincebuz solta suas primeiras notas que levam a epifania coletiva a entender finalmente a razão de se colocar dois bateristas, um de frente para o outro (de lado para a galera), utilizando-se do mesmo bumbo, no sutil palco da Óbvio. Arriscaria dizer que foi uma catarse controlada com base nas expressões que vi das pessoas presentes, tipo saca aquela vibe de assistir aquele filme lado bezão sabendo que o filme é bom demais, que o diretor é fodão, mas que você só não foi ainda porque não estava passando na sua cidade, saca? Porém Vincebuz é muito mais que isso, é (muito) peso, é (muita) viagem, é (muito) ruidinho, é (muito) efeito infernal, é (muito) bom enfim.


E fechando desta vez, a local Hit Cinema Show mostrou um set bem conciso com sua atual formação (são 6 malucos em cima do palco mermão, vai vendo...) onde seus sons de eflúvios hardcore e metal se misturam com naturalidade a expoentes máximos da boa música contemporânea, como no caso de Inner Vision do System of a Down, versão muito bem executada pelos Pindenses que inclusive estão com um trabalho bem bacana de vozes.



Pessoal de Mogi apareceu em peso, como também uma boa galera de Pinda, além de um povo de Sampa. No final é tudo “rockerada-irmão”. Graças a essa gurizada é que o Festival Lumière continuará firme e forte, rondando e sondando novos e tradicionais picos e bandas. Aí quando você menos espera já são 5 da manhã, tudo acertado, todos felizes e com sono, comendo o bom e velho x-salada noturno, quando repentinamente um trecho lhe vem à cabeça, e a risada sequelada será inevitável:

“Português herói, navegante é o Cabral
Para tudo terra a vista, o bonde segue sua nau
Segue sua nau, o bonde segue sua nau
Segue sua nau, o bonde geral na nau...”

segunda-feira, 26 de julho de 2010

FAIXA-A-FAIXA: JANE DOPE - EP (aka As 4 Na Augusta)

Texto: Cris Tavelin

Azul dopado

Nas artes plásticas, o azul, dependendo de sua tonalidade, é a cor da tristeza. Vide Picasso na sua fase mais intimista e bela. E não por acaso, no mundo indie de Jane, seu EP debutante se veste dessa cor. Com seus altos e baixos, entre a empolgação de sábado à noite e a ressaca da manhã de domingo, as músicas contam pequenas histórias de sensações perdidas nesse meio tempo. Porque depois de qualquer final de semana, voltamos todos à solidão de nós mesmos. “Sadness is my lover” é a primeira frase que se ouve.

Um tanto tensa, Sadness é chapada por si só, sem droga nenhuma. O backing vocal grave que se sobrepõe à voz feminina doce no decorrer da música soa quase como a abordagem de um estranho bêbado na madrugada, cercando alguma personagem a vagar solitária pelas ruas. As guitarras limpas caem perfeitamente bem e evidenciam um ar de nostalgia anos 80; entre a calmaria e o desespero, as notas remetem a flashes noturnos, ofuscantes e desfocados. O aumento da intensidade acaba por morrer na continuidade pós-punk repetitiva: “Sadness is my lover, Sadness is my lover”. Não há mudança. Não há esperança nenhuma.


Na sequência, um violão-balada chama a segunda faixa, Homeless Duck. A bateria segue num ritmo grave e os efeitos de guitarra dão um charme ao contexto. Melodia mais simples, sonoridade mais pop, nessa faixa tem-se a impressão de se saber aonde vai. Mas só quem a ouve sabe do próprio destino, porque Duck está louco e desabrigado. “Kiss me Kiss me” é um momento que poderia soar até fofo em seu desespero, mas logo é interrompido por uma melodia estranha. Pobre Duck, com o corpo pontilhado de bolinhas brancas na capa do EP. O instrumental acompanha sua história e a sonoridade revela uma certa decepção patética, um desapontamento com a vida, uma boa dose de carência – e a necessidade de uma boa dose de qualquer coisa para aguentá-la.

Em HAT (High Alterated Temperature) um aspecto que já está em destaque a essa altura do EP são os ótimos backing vocals da banda - novamente a Jane aposta no contraste entre a voz feminina doce, quase sussurrada, e os graves que criam um clima soturno, meio irônico. A atmosfera é tensa o tempo inteiro - nessa música a sensação permanente é de que algo irá acontecer, mas não se sabe o que. Ponto alto do EP. Na melodia marcante do refrão a banda se encontra.

Para fechar, temos a acelerada No Guilt. Os espaços do instrumental – sustentados apenas pela bateria - são interessantes e a voz sutil que o acompanha mal se sobressai, o que cria um efeito interessante, faz o ouvinte ficar mais atento e curioso em relação à letra, diferente da maioria das canções que seguem esse estilo. A mudança no andamento traz algo de Sonic Youth em si e deixa a música lenta e arrastada no melhor dos sentidos - como se fosse o desfecho dessa história contada nas entrelinhas, a volta pra casa de tantas sensações conectadas e confusas. O retorno a um andamento animado e sua quebra fecha de forma abrupta o EP.

Com esse final, só resta dizer que a Jane tem um andar peculiar e passa por todas as delícias e agruras da vida em uma noite: ela caminha entre a crueza da sanidade e a delicadeza da loucura.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

RESENHA: FESTIVAL LUMIÈRE @ CAMPUS 6 ROCK BAR – MOGEE DOS CREIZES - 10/07/2010

Bandas: The Walkie Talkies / Conte-Me Uma Mentira / Jane Dope / Up Brothers

Texto: Regis Vernissage
Fotos: Nynona

Pois é mermão, você que pensa que é fácil essa vida de coletivo, digo-lhe de cara que estás redondamente enganado... Nunca passamos por tantos imprevistos e pepinos como nessas últimas duas edições do Lumière. O de Pinda já foi descrito aqui embaixo e, no final, tudo deu certo. Pois bem, o de Mogi, já marcado há pelo menos uns 3 meses para acontecer na Divina Comédia, viu tudo evaporar-se quando recebemos a notícia na terça-feira passada que o Alê havia quebrado o tornozelo num kick flip reverse e infelizmente não teria condições de abrir a casa (alô Alê! O BM te deseja melhoras, querido!), então para mantermos a agenda de pé e honrarmos com as bandas, corremos para nossos incríveis parceiros do Selo Sem Sê-lo e fomos abruptamente bem recebidos de forma que o Festival ocorresse sim em Mogi, porém no mais bacana rock bar da cidade, o bom e velho Campus 6.

Com apenas 60% do coletivo presente (Henrique e Thânia estavam em viagem), eu, Andrea e Zé fomos surpreendidos pela insaciável boa vontade dos irmãos Odorizzi João, Elmo e Eder que revezavam no bar, além da shoozona Nanda Azevedo e do nosso cartazeiro oficioso Gabz Ronconi que deram uma puta força no controle da entrada. E sem contar o guerreiro fotografista KBÇA Corneti que, através de ônibus e trem, veio sozinho lá da Freguesia do Ó apenas pra montar a exposição de fotos dos nossos parceiros retratistas. Essas pessoas foram essenciais para que o Festival rolasse de boa, sem elas não seríamos nada! Toda palavra aqui parecerá pouca para agradecer tudo que fizeram, vcs são foda!


Com um inovado mapa de palco desenvolvido pelo graaaande Eder, as bandas ganharam maior espaço no palco do Campus e houve ainda uma melhora notável no som sendo que os amplis viraram retorno e todos se ouviam com grande nitidez. E foi assim que os paulistanos da The Walkie Talkies, capitaneados pelo gente boníssima Renato Ribeiro, mostraram pela primeira vez ao público mogiano seus ótimos sons de referências pós-punk, revestidos em características dançantes dos anos 00 no melhor estilo Franz Ferdinand, The Bravery e The Fratellis, que acabou agradando várias pessoas que inclusive pediam cds pros caras. Pena que ainda não possuem (a banda é relativamente nova), mas quando tiverem material pronto, podem voltar carregados pra Mogi sem medo, pois certamente a gurizada irá cair de ouvidos!

A essas alturas já havia uma grande parte de rostos conhecidos da tal cena mogiana no local, dentre os quais se destacavam Dan Sevali, Athos Araújo, Zelenski, Phael, Alê Lima, Erik Cardoso, Giovana Machado, Aninha Tomeh, Gummercindo, Duda Citriniti, Felipe Lima, Rafael Gomes, Marcelo Menezes, Vitor Leonardo, Maurício “Grilo”, Natacha “Natty” Galvão, Diego, Cícero, a incrível e sempre saltitante Camilona, além das amadas, lindas e queridíssimas Claris (sim, ela veio!) e Nynona, que assina aqui todos os retratos da noite.

Todo esse povo mais uma galera considerável presenciaram uma apresentação rasgada e cheio de gás dos fellas do Conte-Me Uma Mentira que abriram de cara com Fogo No Céu, já visível e completamente satisfeitos com os seus amigos!! Jel, Caio, Thiago e Pablito tocaram com muito feeling e tesão sons do disco “O Vôo do Pássaro” e demonstraram estar se divertido naturalmente em cima do palco em dia inspiradíssimo. Apresentações do C1M serão sempre diversão garantida pra quem sabe e curte o que é a essência do rock e quem tava lá não me deixa mentir (com o perdão do trocadilho).

Colado neles, a Jane Dope subiu ao palco em sua nova formação “de 4” e mandou um set baseado no que vem tocando durante a divulgação de seu primeiro EP (que parece ter-se esgotado) com uma remodelação sonora já aparentemente adequada ao novo formato. Eder e Regis (este vestido de advogado indie, disseram) finalmente se entenderam nas guitarras enquanto Andrea e Nanda continuam na cozinha, fazendo ótimos quitutes, docinhos e comidinhas afins para a puta exacerbada, louca, insana e cheia de amor mal compreendido para dar pra quem quiser... enfim comer.

Fechando o Lumière Mogi do inverno de 2010, os paulistanos da Up Brothers guiados pelo vocal e colaborador do BM Rick Renan também fizeram seu debut na cidade do caqui, da festa do divino e dos cogumelos shimejis, mostrando um trabalho sólido através dos sons lançados em seu primeiro EP entre eles Ana, Uma Espera e Quem Foi?, que remetem bastante a bandas como Silverchair e Incubus, além de um som novo cantado em inglês, que parece ser o primeiro deles na língua de Shakespeare. Tanto a Up Brothers quanto a The Walkie Talkies tiveram ótima aceitação e foram super bem recepcionadas na cidade, o que deve provocar uma volta delas em breve a estes confins alto-tietênicos.

Apesar da semana tensa e da pouca divulgação feita justamente por causa dos empecilhos ocorridos, conseguimos (graças à força imprescindível do fiel público mogiano e aos combatentes do Selo Sem Sê-lo) fazer com que o resultado final fosse positivo para as bandas e, mais uma vez, nós do BM nos sentimos realizados fazendo aqui na cidade o que tem que ser feito: sendo uma engrenagem na circulação das bandas, levando as locais para fora e trazendo as de fora para cá, ou seja, um simples intercâmbio cultural funcional. Nada mais justo após isso tudo então, que queimar um papinho e fazer um pistop no Habib’s para um lanche mata-larica-monstra, muitíssimos bem acompanhados pelos não menos guerreiros Renato Gimenez (da infernal Vincebuz) e Cris Tavelin (da revivida Drama Beat e colaboradora BM) que tiveram a moral de sair lá de Sampa pra “dar uma passadinha” no Campus 6. E aí, tens a manha de cair nesse braço de ferro, mermão?

sexta-feira, 25 de junho de 2010

FESTIVAL LUMIÈRE @ BEBOP MUSIC BAR

RESENHA: FESTIVAL LUMIÈRE @ BEBOP MUSIC BAR – TAUBATÉ - 19/07/2010
Bandas: Seamus / The Vain / Maquiladora / INI / Jane Dope

Texto: Regis Vernissage
Fotos: Carol Ribeiro & Stefano Martins

Contrariando o gelo que vinha fazendo nas semanas anteriores, este sábado demonstrou-se mais brando em relação à quantidade de roupas que deveríamos levar para a sempre quente Taubatéxas. Chegar ao centro foi coisa fácil e pouco antes de aportarmos na Bebop, encontramos sentados na mesa de num bar de esquina os ilustres Fernando Lalli e Vinícius Pacheco que saboreavam um prazeroso malte dos deuses enquanto se encarregavam de nos informar que naquele instante os meninos imprestáveis da The Vain passavam o som no pico. Lá chegando, tratamos de logo descarregar os instrumentos e fazer o check-in na casa, que se trata de um sobrado que possui bela decoração rocker, mesas de bilhar (que me lembram da chegada triunfal de Stéfano, oh Sté...) e vários ambientes extremamente aconchegantes. Num deles, no piso superior, foi montada a vernissage dos fotógrafos Stéfano Martins, Carol Ribeiro e KBÇA Corneti que causou frisson durante um bom tempo, uma vez que antes do início das apresentações das bandas o movimento no cômodo designado fora intenso e repleto de roqueiros e roqueiras que apreciavam o belíssimo trabalho que os 3 fotógrafos vêm fazendo. Em dado momento, parecia que o bar inteiro estava lá em cima devido tamanha movimentação, tudo isso animado pela sempre incrível discotecagem do onipresente Gabriel Ronconi que flutua com extrema facilidade entre Slayer e Tom Waits, entre Dinosaur Jr e Motorhead, entre At The Drive-In e Otto...

E então com todas as bandas já presentes foi feito o sorteio da ordem das apresentações. Eram exatamente 23h quando o Seamus tratou logo de abrir a noite com um setlist arrebatador sob o comando de um inspiradíssimo Luis Meteoro & seu delay assassino onde pouco se deu tempo sequer para respirar. Tudo colado assim: Red, Modern Dance, A Year Without Breathing, Blame e Hate Campaign, inclusive essas 3 últimas costuradas da mesma maneira que escutamos no cd SOTCYL. Coisa fina. Coisa para ouvidos atentos. Fiquei sabendo que a banda não ensaia há tempos, mas não importa para nós - simples e mortais tietes - o que acontece lá dentro entre eles, única coisa que deixo aqui bem claro é que música boa e de qualidade “não vira” aqui nestes confins varonis do planeta. Seamus é for export, é pra Glastonbury, é pra Reading, é pra P.A. profi for real.


O mesmo podemos dizer da “relativamente nova” orientação sonora praticada pelos malucos da The Vain que tocaram na sequência seu rock dançante de pegada européia. Apesar da ótima qualidade de som encontrada na casa, fiquei imaginando como seria ouvir num “P.A.zão” de fest gringo as guitarras corrosivas da Guilty Pleasures, os efeitos viajeiras da Modern Kidnapper e a linha de baixo da incrível Gold, músicas que abriram o set da banda e integram seu recém lançado EP Modern Kidnapper. E mais, há tempos não ouvia uma abrasividade sonora tão grandiloquentemente noisy (essa terminologia foi a que mais se aproximou do que esses vândalos fizeram no palco) no encerramento do set deles. Coisa linda de morrer! (Vai aqui a dica para quem é de Mogi: neste sábado 26/06 eles estarão na Divina Comédia  absolutamente imperdível!)



Era então hora da Maquiladora mostrar para Taubaté os ótimos sons do seu My Silent Van Gogh como Loc9Nat, Walk Among, Cheap Perfume e Iceberg, sem se esquecer de clássicos como a alcoólatra Too Much Wine que sempre dá brecha para a roda de pogo estabilizar-se perante a galera que impreterivelmente fica de 4 com a qualidade sonora apresentada pela banda. Mais uma vez foi ouvida durante o show a máxima que já está se tornando corriqueira em apresentações Maquiláticas, a tal “DEPILA ELE!”... Um dia hei de descobrir quem foi o Zé que hypou esta máxima... Hora então de queimar um papinho “Con Ayuda” ali fora pra absorver e “tentar reparar” o dano causado pelas 3 bandas e, ao mesmo tempo, preparar terreno para o que havia de vir.


Talvez toda e qualquer palavra que eu tentar expressar aqui será redundante ou sequer conseguirá passar para você, nobre leitor, o que significa ter a 3 metros de você os sorocabanos da incrível INI alterando momentos extremamente barulhentos com uma calmaria que chega a ser muda, agregando-se doses cavalares de psicodelia (principalmente por parte da guita efervescida de Rick Rave) além de uma forte camada de testosterona fluindo por suas composições, sem ser metal nem punk nem crossover. Aliás, sem definições aqui, ok? A INI não foi feita para ser definida, apenas contemplada. Preferencialmente boquiaberto. Tente sobreviver após testemunhar, como disse - a 3 metros de você, uma sequência de Bandeira de Holerites, Do Abismo e o Abismo, Cru, Tché, Becos Ossos Meus e a sensacional performance de palco desses malucos! Eu piscava vorazmente tentando morder meu maxilar e me beliscava constantemente pra saber se ainda estava vivo até então... Minutos mais tarde, afinando instrumentos no backstage para o set da Jane Dope, estava completamente atordoado com a potência sonora da INI que, em minha opinião, resolveu a noite com sua sensacional Caixa do Macaco.


Foi tudo muito rápido, olhei no celular pra fazer o efeito louco da intro Dopióide e acusava 2h20, ajeitamos então os efeitos necessários praquela sensacional musiquinha sopa, diria trilha sonora de motel barato, seguida de uma breve bolha para abrir nossos serviços para os poucos amigos que ainda restavam na noite (a grande maioria estava lá indiscutivelmente para ver Seamus e The Vain - mas teve uma rapa de sortudo que ficou e pirou com Maquila e INI) incluindo aí as guerreiras Gigi, Camilona, o graaaande Gummer e nossa incrível ex Duda Itálica dos Teclados, acompanhados pelos INI sangue boníssimos, os irmãos Ronconi e mais uns 3 ou 4 sobreviventes da apresentação do INI. Para a Jane Dope foi interessante, nos sentimos como fazendo um ensaio aberto para amigos queridos, tocando os 4 sons do EP, versões remodeladas para a nova formação “de 4” (uiui) da Nap e Radiograve, além das novas Jane Dope: A Diamond On The Road, Oh Ann e MissJeeJee que deverão também fazer parte de nosso próximo trabalho de estúdio. Por ser o primeiro show com a formação nova “de 4” com nosso grande (enooorme) Eder Odorizzi, acreditamos ter cumprido nosso papel junto à puta Jane, apesar dos erros que são naturais e os palcos estão aí para isso mesmo, para improvisarmos a vida.



A volta para casa enfim ao som do novíssimo Heligoland pra acalmar a gurizada, o pitstop já tradicional no Frango Assando, os pedágios e serras, a entrega da rapeize e a chegada em casa no alvorecer dominical de uma fria manhã de junho não mentem: a satisfação e o zunido no ouvido adquiridos indicam que chegamos de mais um Festival Lumière. E julho está batendo em nossas portas com Lumière em Pinda na Choperia Óbvio em dose dupla (dias 03 e 04) e na semana seguinte em Mogi na Divina Comédia (dia 10). E então, vai ficar aí paradão?

segunda-feira, 31 de maio de 2010

RESENHA – FESTA SELO BEQUADRO SEM SÊ-LO MOSTARDA

Texto: Regis Vernissage
Fotos: Kbça Corneti

Sábado intenso em Mogee Rock City no que concerne a especialidade aqui da casa, o rock independente. Após tudo o que aconteceu na cidade durante a Virada Cultural Paulista 2010, de bom (apresentação histórica do Mudhoney na cidade além de serem entrevistados pela Maquiladora, e esta, Jane Dope e Vício Primavera deliciando-se em palcos de estruturas profissionais, o Selo Sem Sê-lo fazendo abertura não-oficial no Campus 6) e de ruim (os fellas do C1M vendo seu set ser abruptamente reduzido em prol história da tal alvorada da festa do Divino, além da completamente desnecessária tesourada-mãe que os Chico Bentos da incrível e implacável Força Tática mogiana aplicaram ao projeto Guerrilha Gerador – fato já bastante discutido e fotografado por aí), era hora de continuarmos com a nossa moeda de troca, a ventilação de bandas e intercâmbio de casas, dessa vez com a Festa Selo Bequadro Sem Sê-lo Mostarda que teve formato semelhante a do Festvial Lumière com exposição dos fotógrafos KBÇA Corneti, Carol Ribeiro e Stéfano Martins e que teve espaço no nosso querido Campus 6.

Enquanto o DJ da noite e também batera do Cor-Séría Fabio Zelenski tocava ícones das nossas vidas (Afghan Whigs, Nada Surf, La Carne, Mentecapto, etc) a primeira banda da noite, a The Mercúrio de Campinas, já estava pronta para mostrar pela primeira vez seu set em Mogi. Músicas longas, etéreas e abrasivas chamaram a atenção pela forma em que eram executadas e pela quantidade de nuances que são propostas pela banda. O lance aqui em Mogi funciona mais ou menos assim: quando o público não gosta do som, eles ficam conversando e tal... quando o público gosta, impera o silêncio completo e total até que a última nota seja emitida da guitarra em prantos, e esta última atitude pôde-se notar nitidamente ao fim do set do The Mercúrio, formado por rapazes simpáticos que foram muitíssimo bem recebidos na cidade.


Macacos velhos de Mogi, os São Bernardenses da Espasmos do Braço Mecânico nem tiveram muito tempo para ficarem bêbados direito e já atacaram na sequência seu garage stoner grungeano ou seja lá o que isso venha a significar (mania besta de ficar criando rótulos!), o que importa é que há tempos eu não via um show desses doidos e, putaqueopariu, como é bom bater a cabeça ao som de “Eu que não quero nada”, “Carcaças Mórbidas”, “Quantos tijolos uma cabeça agüenta” e a sensacional “Posso Ajudar?” com seu esplêndido refrão que podemos com imensa facilidade dedicar para uma lista joselitos! Há tempos venho pensando numa coisa que devo fazer dentro de alguns anos: Os Espasmos são a banda que deverei chamar pra tocar na festa de 18 anos da minha filha mais velha... Diversão garantida!

Correndo contra o atraso do tempo, os mogianos do Seamus (sim, são mogianos, não sabia?), vestidos de um Bôe careca e um Meteoro desprovido de voz, tiveram o privilégio de fazer 2 setlists para a mesma noite, pois tocariam ainda na mesma madrugada na Divina Comédia. Tudo muito intenso e alto pra caralho na Red e melhor equalizado na Modern Dance em diante, tiveram o prazer de tocar para uma gurizada que estava na sede de vê-los em ação no Campus 6 – bem, esta foi a informação que me chegou até os ouvidos – e sem sombra de dúvidas não deixaram por menos, sendo massivamente ovacionados ao final da épica “Experiences with broken glass” que causou até a perda dos óculos do batera Zé Ronconi. Quem encontrá-los favor entrar em contato com este Blog ou no post abaixo.


Já a Maquiladora mostrou sons de seus cds My Silent Van Gogh e Parturition e pra variar causou furor nos meninos que sempre se empolgam com a vitalidade e entrosamento das meninas e começam loucamente a bramir frases do tipo: “A baixista é lésbica! Depila ela!”, o que definitivamente serve como força para que a banda detone cada vez mais em suas performances e composições. Inclusive um ponto notável é a quantidade de sons novos que a banda põe na roda. A quantidade de “Too Much Wine” que eu já havia bebido me deixou assim, meio lesado, a ponto de esquecer algo, mas tenho quase que absoluta certeza que tocaram 2 músicas novas. Comentários no post serão bem vindos.

E finalizando a história tivemos uma apresentação bizarra da Jane Dope, diria esquisitona, pois foi o primeiro show sem a tecladista Duda que saiu da banda na semana passada, e ao mesmo tempo o último show com o guita Marceleza e o primeiro com o Eder Odorizzi que está entrando no lugar do Marcelo. Pode ser que tenha ficado esquisito aquele bando de 3 guitarras, na verdade minha opinião é um tanto quanto suspeita, mas temos que concordar que o show foi cheio de imprevistos (cordas quebradas – agradecimento especial ao Rafael Espasmos que emprestou sua guita, baixo que se recusou a funcionar quando devia, voz que se recusou a cantar afinadamente, enfim...) e no final das contas, apesar do atraso no horário, tudo acabou funcionando razoavelmente bem.

Era hora então de fechar o Campus 6 e partir pra Divina Comédia descansar um pouco e curtir o som do Alarde e a segunda parte do setlist do Seamus (Half-less Love veio, Hate Campaign não), que serviu pra levantar quem considerava-se cansado e já pensava em ir pra casa, mas aí já é outra história que só terminou de fato com o gélido sol da manhã dominical deste declínio de maio.

quinta-feira, 27 de maio de 2010


Em parceria com o Selo Sem Sê-lo, O Coletivo Bequadro Mostarda está realizando nosso primeiro evento no queridíssimo Campus VI, que contará com a presença das bandas:
Seamus, Espasmos do Braço Mecânico (ABC), Maquiladora, The Mercúrio (Campinas) e Jane Dope.

Teremos também a já tradicional exposição de fotos, cujos anfitriões serão os já mogianos Stefano Martins, Kbça Corneti e Carol Ribeiro, que estarão retratando também as imagens deste sublime acontecimento!

E atrás das Dê-Jotas estará nosso parceiro de noites e furadas mogianas, Zelenski, tocando as músicas que marcaram suas vidas!

quarta-feira, 28 de abril de 2010

RESENHA: FESTIVAL LUMIÈRE no CIDADÃO DO MUNDO (São Caetano do Sul)

Efeitos noturnos do ABC

Texto por Cris Tavelin
Fotos por Daniele Guiral

Um lugar sem placas, com algumas indicações que fazem pobres motoristas caírem na contramão – São Caetano do Sul pode confundir as visitas, mas acho que ninguém se importou com isso no final da noite sábado. A pedida era o Festival Lumière, que aconteceria no Cidadão do Mundo.

E a movimentação começou cedo por lá. Oito horas da noite apareciam os primeiros gatos pingados – entre eles, eu – tomando drinks coloridos em copos de plástico. A rua parecia fazer parte de algum bairro residencial, sensação que destoava apenas com a pichação do muro indicando que “punks do ABC” estiveram por ali. Do outro lado da calçada, estrelas cintilantes nasciam de um possível curto circuito no poste.

Enquanto alguns bebiam e tentavam montar cubos mágicos do lado de fora, a Jane Dope começava a montar o palco para se apresentar. As linhas de guitarra/teclado/baixo, por vezes uníssonas aos vocais, e a variação no tempo das músicas – que remetiam a um grunge perdido no meio de batidas mais dançantes – foram aspectos presentes do início ao fim da apresentação.


Os detalhes mais interessantes ficaram por conta de uma das guitarras: um delay meio atmosférico deixava um som etéreo no ar, quase nostálgico. Lembrei-me de efeitos similares que o Bowie usava em alguns álbuns do final dos anos 70 / início dos 80, a visão de Christiane F. jogada na sarjeta e o barulho de sirenes percorrendo os cantos de uma Alemanha despedaçada por anos de guerras físicas e mentais.

A bateria, em questão de dinâmica, também se destacou, entre momentos de uma calmaria quase lullaby e outros de caixas e pratos "à volonté". Os vocais na Radiograve, que dividem em tom infantil, parecem mais ter vindo de algum filme trash dos anos 80 com crianças psicodélicas e bonecos assassinos (vide a capa do EP deles, talvez diga algo a respeito). Diria que a Jane carrega uma doçura pervertida em suas músicas, alternando momentos viajantes com partes mais simples e diretas.

Na sequencia, os efeitos, antes mais sutis na Jane, viriam com força no Seamus. Deixando de lado definições superficiais como “noise”, “guitar” e todas suas variações, a grandeza do show deles se deu na mescla de baixo e guitarra: enquanto os graves cantavam melodias intensas e bonitas, por um lado, a guitarra principal gritava, escandalosa, do outro. No meio disso tudo, a guitarra base dava apoio aos dois lados, junto à bateria.


É como se a mesma história fosse contada paralelamente, de formas diferentes, criando um contraste entre a angústia cheia de efeitos e a beleza melódica que lhe dava chão. Nessas horas penso que realmente esses dois conceitos – beleza e angústia - andam de mãos dadas.

Em determinado momento, o guitarrista larga as cordas e leva as mãos à cabeça. Na minha inocência de espectadora, achei que fosse algum tipo de performance esquizofrênica do tipo “onde estou”, mas era apenas a microfonia dando seus ataques corriqueiros aos que gostam de pedais de efeito. Nem tudo é tão romântico numa apresentação ao vivo...

Depois do abalo causado pela sonoridade um tanto sensível e áspera do Seamus, o Narcotic Love entrou com músicas mais dançantes, feitas de baixo, bateria e voz mais bases de guitarra e algumas baterias eletrônicas gravadas. Bom para manter o tempo, mas não consigo me empolgar com gravações executadas durante shows, falando especificamente de guitarras.


O mundo já é digital demais e eu sou mal humorada o suficiente para não aceitá-lo com minhas idéias retrógradas de anos 70 e toda aquela coisa de instrumentos espetados direto no amplificador, quase uma extensão das vísceras de quem os toca. Acho que nesse quesito se perde um certo torpor que existe quando uma pessoa empunha uma guitarra – e, cá pra nós, nunca se sabe realmente o que ela vai fazer com aquilo. Mas isso é só minha opinião. As pessoas bebiam e dançavam em frente ao palco, felizes da vida. Ponto pra eles.

Seguindo a noite, o Up Brothers entrou na sequencia com pop-rock cantado em português. No momento em que eles estavam no palco, eu me encontrava do lado de fora, numa conversa que não poderia deixar de ter (o mistério das noites de sábado embaixo de postes de luzes amarelas, existe algo melhor?).


Fui informada por minhas fontes exclusivas e bêbadas que a apresentação “destoou do som esquizóide das outras bandas (nada como adjetivos estranhos para resumir estilos musicais), porém honesto e muito bem executado. Uma palavra pra defini-los talvez seja ‘radiofônico’”. Achei coerente a definição, vou adotá-la.

Por último e para acabar com a expectativa gerada em torno de sua estreia nesse novo circuito (apenas nesse circuito, porque a banda já é de longa data) a Glassbox entra na sua caixa de vidro ambulante e executa sensações estranhas de dentro dela.


Detalhe admirável: são poucos power trios que realmente seguram a onda ao vivo, em qualquer estilo que seja. E quando se pensa nos arpejos incessantes das músicas deles, seguros apenas por um vocalista/guitarrista, isso é quase um milagre. O baterista sofreu até o fim - com ritmos baseados em viradas ininterruptas apoiadas nas peças graves, o tribal contrastava com o chorus e o flanger que não largavam as cordas da guitarra. Melodias percorriam o tempo ficando mais densas ou sutis com a voz aguda as empurrando para frente, num ritmo tenso e nada confortável – uma zona de reflexão incômoda e necessária. É, acho que eles chegaram onde queriam.

Com tantos estilos diferentes na mesma noite, que se casam de alguma forma estranha no emaranhado de sensações que transmitem, pode-se dizer que cada apresentação foi peculiar. E a conexão que se deu entre pessoas que passeiam por tantas vertentes do rock e, por vezes, têm concepções diversas sobre tantos assuntos, foi o ponto alto do evento. As ideias compartilhadas musicalmente e verbalmente devem reverberar muito além desse último final de semana.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

RESENHA: LUMIÈRE FESTIVAL em MOGI por LA CARNE

Fotos: Kbça - http://www.flickr.com/iwannabebobgruen

LUMIÈRE FESTIVAL


Quando chegamos em Mogi, logo em frente ao Divina Comédia, já estavam Régis, os caras do Seamus, e mais uma pá de amigos que foram lá conferir a festa.
E os caras do Bequadro Mostarda fizeram uma divulgação firmeza do evento, teve matéria em jornal, site, lambe-lambe e o escambau.


E aí, pra alegria geral, só ia chegando gente. De todas as direções. Das vezes que tocamos ali no Divina, essa certamente foi a que teve casa mais cheia, galera insana (show com 5 bandas!) e ainda teve um público dos mais acolhedores.
Encontramos tantos amigos e tantas bandas ali que com certeza vai faltar alguém, nos perdoe. Tava o Elmo do Campus VI e seu irmão fã do parmêra (paciência, mas ele é gente boa...rs), o Gabriel (Hierofante Púrpura) que voltou recentemente de uma trip nervosa pela Irlanda, uns trutas de Sorocaba (isso mesmo, os caras foram lá pra Mogi, vai vendo), ah, e fora o zilhão de banda.

Lá dentro do bar, pra vc ter uma idéia, tava embassado pra andar, pra pedir uma cerveja, pra arrumar um canto e ouvir as bandas, desse jeito. Alem dos shows tava rolando discotecagem do Meteoro, barraquinha de venda de cds e uma senhora exposição de fotos.

Quem abriu os trabalhos foi o Jane Dope. O som deles é uma montanha-russa de referências psicodélicas, explosões punx, guitarras duelantes e letras espertas. De repente, um contrabaixo pop-cabulozo deixa um clima soturno no ar, como em “Sadness” e “H.A.T.”. Um teclado insano, pilotado pela incrível Duda. Violões evocando o caboclo-sete-flechas Johnny Cash. Pô, nessas a gente tava ouvindo, bebendo e teorizando: Mogi das Cruzes tem uma cena alternativa muito fudida, bandas com propostas sonoras inovadoras, diferentes do clichê “indie”. Uma safra de vinhos nobres, no caso: Jane Dope, Vício Primavera, Korovas, Accidentes, Hierofante Púrpura, Cafetones, Maquiladora, Conte-me uma Mentira, Cor Séria, Topsyturvy, etc, etc, etc.... Foda.

A Maquiladora é uma trêta à parte. O carisma ali é total. Nesse show até a contida (??) Thais teve a mãnha de descer e ir solar no meio da galera e voltar ovacionada pro palco. Vai vendo, tá folgada essa mina... As músicas novas já estão nas goelas da galera e fica muito bonito de se ver o show. A Thania tem sim a moral de carregar a platéia, e ainda junta o entrosamento fu-di-do da cozinha Andréa+Henrique e tudo vira um jogo sujo - pra quem tocar depois deles, no caso.

Depois veio o Jair e seu novo trabalho. Todo mundo sabe, nós do La Carne somos “viúvas” do Ludovic – a ex-banda de Jair Naves. Nunca escondemos isso. Lado a lado com os Ludovics, viajamos de van, bebemos e demos boas risadas, fizemos vários shows – Belo Horizonte, Franca, Curitiba, bares de SP, no Baal...todos eles foram muito marcantes pra nós. O Ludovic fez história. A mistura das desesperadas/delicadas letras do Jair, com os arranjos de uma banda que é(ra) pura pedrada - Hugo, Du, Zic, Febry, puutz... - e as viscerais performances ao vivo... Cara, sem rodeios: cada show nos marcou, e nos ensinou, coisas importantes a respeito daquilo que se convencionou chamar de rocknroll.

Por isso, estávamos intrigados – e ansiosos – com o show do nosso amigo e ídolo Jair Naves. Curiosos sobre o que iríamos ver e ouvir, já que “Araguari”, o novo trabalho dele, é bem diferente do resto da sua obra. (Permita-nos uma desavergonhada franqueza: chegamos a cogitar entre nós: “mas, e se a gente não gostar do show?”. Tipo: “Teremos coragem de escrever isso no Diário de Bordo? Na qualidade de “viúvas-carpideiras-do-Ludovic?”, o que dizer sobre “Araguari”?)

Chegou a hora. E o que se viu e ouviu em Mogi das Cruzes, no Divina Comédia, às 3 e pouco da manhã?

Primeiro: Jair tá muito bem acompanhado. Mark Paschoal, um baterista extraordinário. Ali Jr no baixo, mais teclados, guitarra, enfim, um timaço. Ao vivo, as canções ganham cores muito mais fortes que no CD, a temperatura delas se eleva às alturas, as letras ganham imagens claras – e de repente, a gente se vê sobrevoando essa tal cidade de Araguari, reconhecemos sua paisagem, suas ruas e seus personagens, guiados pela voz poderosa/cavernosa do “bardo”, que faz - agora sim - seu pessoal ajuste de contas com o passado.

Jair canta com a mesma paixão e entrega de sempre. A voz fica bem na frente, e podemos entender cada frase da letra. Os mesmos olhos tristes, o mesmo sorriso largo/envergonhado. Jair deixa nós e toda a platéia hipnotizados, totalmente de ouvidos ligados – ameaça explodir, e então, volta à calmaria do seu violão. Foi muito aplaudido, e retribuiu com agradecimentos sinceros. E La Nave Vá, Jair...


Depois, de longe, já que a gente tava afinando os instrumentos, vimos a muvuca se armar durante o show do Seamus. E mesmo tendo tocado com eles há duas semanas - sem querer soar repetitivo - as mesmas palavras do show anterior cabem aqui, gente pedindo sons, berrando os refrões arrasadores, dando socos no ar e inevitavelmente invadindo palco, “A Year without breathing” mais uma vez arrepiou, e daí pra ganhar a galera foi tranqüilo. Boe, Meteoro, Pedro e Zé tão tocando afiadíssimos. Mais um grande show! Seamus não é do Brasil. É do mundo.


Mas o que tava muito claro ali era o quanto que a galera tava a fim de ouvir as bandas e ver os shows. Todas, todas as bandas tiveram momentos no qual o público vinha junto.
E com a gente não foi diferente. Desde a hora que chegamos, descarregamos o carro, bebemos, tomamos ar, demos entrevista, batemos foto, ganhamos cds, conhecemos um monte de gente, enfim, fomos tratados com um carinho que é impossível descrever. E na hora do show, foi o seguinte: ele não sairá tão cedo das nossas cabeças.
Passavam das 5 da manhã e uma pequena multidão ali, urrando e sangrando com a gente, roubando microfone, se jogando pro alto, nos olhando no olho e cantando os nossos absurdos. Conclusão: não se tem como sair ileso de um show em Mogi. Já tocamos várias vezes lá, mas dessa vez foi inesquecível. Obrigado. Obrigado, essa palavra é tão pouco...



Depois ficamos embassando e vendo raiar o dia na frente do bar.

Ah, e a gente quer agradecer muito pelo convite do Bequadro Mostarda. E ó, essa empreitada que vocês estão entrando é aquele lance tipo uma misto de Samurai e malandro, saca? Pensar agindo e agir pensando. E aí, lá na frente, quando vocês estiverem de saco cheio de tudo, quando forem mandar tudo à inevitável merda, vocês verão que isso, de fazer o que vocês quiseram, levou vocês muito longe. Filosofia de vida fuckers, “Distraídos venceremos”.

FIM

sábado, 10 de abril de 2010

O FESTIVAL LUMIÈRE É DESTAQUE NO MOGI NEWS E NO DIÁRIO DE MOGI!

http://www.moginews.com.br/materias/?ided=799&idedito=6&idmat=59671

Variedades

Matéria publicada em 10/04/10 - Mogi News

Música Encontro reúne artistas e bandas independentesFestival Lumière, que terá sua primeira edição em Mogi esta noite, é uma grande vitrine para músicos, fotógrafos e produtores culturais de outros segmentos

BÁRBARA BARBOSA
Da reportagem local
Divulgação

Intercâmbio: Evento contará com várias atrações musicais, a partir das 21 horasUma vitrine de bandas autorais, fotógrafos e artistas plásticos. Assim pode ser definido o Festival Lumière, que terá sua primeira edição em Mogi esta noite, no Divina Comédia Clube, a partir das 21 horas. Trata-se de um festival itinerante, organizado pelo coletivo Bequadro Mostarda e que já percorreu Pindamonhangaba, São Paulo, São José dos Campos e São Caetano do Sul. No palco da casa noturna, estarão as bandas Jane Dope, Maquiladora, Seamus, La Carne e Jair Naves (antiga Ludovic).

Lançado há três anos nas cidades do Vale do Paraíba, o Lumière terá sua primeira edição em terras mogianas e, segundo um dos organizadores, Regis Vernissage, a ideia é que ocorra na cidade a cada três meses. Outros municípios, como Campinas, Sorocaba e Belo Horizonte,também negociam receber o festival."Como várias bandas e artistas mogianos já tocaram ou expuseramem Lumières anteriores, nada mais natural que Mogi ter entrado neste circuito", explica ele.

Vernissage, um dos produtoresdo Bequadro Mostarda, ressalta que o objetivo do coletivo, formado pelos grupos Jane Dope (Mogi/São Paulo), Seamus (Taubaté/Pindamonhangaba) e Maquiladora (Mogi/Suzano), é promover o intercâmbio de artistas e bandas autorais independentes.Apesar de o coletivo abrir espaçoa todas as vertentes musicais,a maioria das bandas participantes das ações é de rock. "São as que mais nos procuram para este intercâmbio", justifica.
O evento desta noite também contará com shows das convidadas La Carne, de Osasco, e Jair Naves, de São Paulo. Haverá exposição de fotografias e artes dos artistas Stéfano Martins, Oswaldo Kbça Cornetti e Thamires Rainbow, de Pindamonhangaba, e Carol Ribeiro, de São Paulo. O festival terá, ainda, discotecagem indie rock com o DJ Meteoro, de Taubaté.

A Divina Comédia Clube fica na rua Otto Unger, 158, no centro de Mogi. O valor da entrada para o Festival Lumière é de R$ 10.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Coisas novas de lá pra cá, aqui e acolá

Noite de lançamentos, novidades e renascimentos com Seamus, Jane Dope e Fellaccios
[Texto por Fabio Zelenski e fotos por Thami Rainbow e Kbça Corneti]

O ano começou há algum tempo já. Mas, como dizemos nós brasileiros, começa mesmo depois do carnaval. E foi depois das festas das poucas roupas e muitas batidões que o Divina Comédia estreiou os shows de 2010 na casa.

Começou bem, aliás. Não é sempre que numa única noite se tem Seamus, a nova Jane Dope e Fellaccios. O simples show de cada banda já seria o bastante para voltar para casa bêbado, com as pernas doendo e feliz.
Mas não. Tinha bonus track pra tudo:

Seamus, depois da novela Taubaté Democracy lança em primeira mão o Sounds Of The City You Love (SOTCYL), depois de mais de três anos construindo-o.
Jane Dope, novata na cena, sem perder tempo, lança o EP Às 4 na Augusta.
E, completando o time, um Fellaccios mais bem ensaiado, que vem se apresentando tendo como banda o próprio Seamus.

Vamos lá. Quem abriu foi o Fellaccios.
É sempre bom ver Giácomo, aniversariante da noite, liderando todos os putos da banda com seus contos mais fiéis à pornochanchada. Esse foi o segundo show que vi dos Fellas com essa formação (creio que seja o segundo show deles mesmo rs) e foi notável como eles estavam mais entrosados. Não soou tão pesado quanto da primeira vez, mas ficou mais Fellaccios, mesmo, mais canastrão, com os teclados mais presentes. Ficou profissional e com mais personalidade.
Depois, subiu no palco a trupe do Jane Dope.
Eles já estreiaram há algum tempo, mas eu não havia presenciado um show ainda. Foi um show com uma atmosfera ótima, que passeavam pelo rock mais agitado a viageras guitarrísticas. Começaram faz pouco tempo, mas estão mandando muito bem.
E, fechando a noite, Seamus.
Eles me deviam um Brilliant Lights Brilliand Stars, e começaram me pagando a dívida. Uma epopéia ótima de oito minutos. E depois, foi só alegria. Tocaram o SOTCYL de cabo a rabo, teve participação do Danilo do Hierofante, gente dançando, gente cantando... tudo que sempre tem num show do Seamus, mas, desta vez, com o prometido álbum em mãos.

Pra primeira noite do ano com shows na Divina Comédia foi bom demais. Se a estreia determinar o clima pro decorrer de 2010 e para os próximos shows, só coisas boas nos esperam.