
E a festa será assim:
http://www.divinaclub.com.br/
Sábado: 20/11/2010 a partir das 23h Quanto: $10 ou $15 (com $8 consumíveis)
Eis que se rasga o sachê. A mostarda suja a partitura e um novo rebento nasce sob o holofote da não-vaidade. Eis que se amplifica a dissonância da essência do universo, a microfonia da alma. Vestido de sua verdade e vontade, dá as caras, transgredindo em ideias e ações para a circulação e exposição do novo, seja na música, seja nas artes em geral. Eis o coletivo Bequadro Mostarda.

Quando chegamos em Mogi, logo em frente ao Divina Comédia, já estavam Régis, os caras do Seamus, e mais uma pá de amigos que foram lá conferir a festa.
E os caras do Bequadro Mostarda fizeram uma divulgação firmeza do evento, teve matéria em jornal, site, lambe-lambe e o escambau.



Depois veio o Jair e seu novo trabalho. Todo mundo sabe, nós do La Carne somos “viúvas” do Ludovic – a ex-banda de Jair Naves. Nunca escondemos isso. Lado a lado com os Ludovics, viajamos de van, bebemos e demos boas risadas, fizemos vários shows – Belo Horizonte, Franca, Curitiba, bares de SP, no Baal...todos eles foram muito marcantes pra nós. O Ludovic fez história. A mistura das desesperadas/delicadas letras do Jair, com os arranjos de uma banda que é(ra) pura pedrada - Hugo, Du, Zic, Febry, puutz... - e as viscerais performances ao vivo... Cara, sem rodeios: cada show nos marcou, e nos ensinou, coisas importantes a respeito daquilo que se convencionou chamar de rocknroll.
Depois, de longe, já que a gente tava afinando os instrumentos, vimos a muvuca se armar durante o show do Seamus. E mesmo tendo tocado com eles há duas semanas - sem querer soar repetitivo - as mesmas palavras do show anterior cabem aqui, gente pedindo sons, berrando os refrões arrasadores, dando socos no ar e inevitavelmente invadindo palco, “A Year without breathing” mais uma vez arrepiou, e daí pra ganhar a galera foi tranqüilo. Boe, Meteoro, Pedro e Zé tão tocando afiadíssimos. Mais um grande show! Seamus não é do Brasil. É do mundo.
Mas o que tava muito claro ali era o quanto que a galera tava a fim de ouvir as bandas e ver os shows. Todas, todas as bandas tiveram momentos no qual o público vinha junto.
E com a gente não foi diferente. Desde a hora que chegamos, descarregamos o carro, bebemos, tomamos ar, demos entrevista, batemos foto, ganhamos cds, conhecemos um monte de gente, enfim, fomos tratados com um carinho que é impossível descrever. E na hora do show, foi o seguinte: ele não sairá tão cedo das nossas cabeças.
Passavam das 5 da manhã e uma pequena multidão ali, urrando e sangrando com a gente, roubando microfone, se jogando pro alto, nos olhando no olho e cantando os nossos absurdos. Conclusão: não se tem como sair ileso de um show em Mogi. Já tocamos várias vezes lá, mas dessa vez foi inesquecível. Obrigado. Obrigado, essa palavra é tão pouco...

FIM
Variedades
(1997) La Carne
O disco abre com dois clássicos lacarneanos: Viaduto do Sol e Demônio Triste, que são odes ao comportamento cosmopolitano encontrado em uma megalópole alucinática como Sampa, já mostrando qual será o nível da conversa daqui em diante. Seguindo na mesma vibe, temos Sobre a Revolução, um som cheio de climas e super bem temperado com o suingue da guitarra de Jorge Jordão e De Uma Lembrança Estranha que valoriza o comportamento nada habitual daquilo que podemos chamar de uma “pessoa comum”.
(2002) Bom Dia, Barbárie!
Validando a linha de raciocínio do estado de inanição descrito ali em cima, Tava Aqui Pensando, mais um clássico lacarneano, abre o cd vomitando esta sensação na cabeça do ouvinte logo nas primeiras frases (“E ainda tô na rua prestando atenção, a multidão tão burra e a chuva devagar... e eu tava aqui pensando quanto tempo é que falta, pra que o dia amanheça e livre a nossa cara”) e arrebata no cinismo aos menos avisados (“Agradeço a preocupação, boa sorte pra você”). Bom Dia Barbárie!, a faixa que dá nome ao disco e outra candidata a clássica, pinta naturalmente com um ótimo trabalho de cozinha em junção com uma guitarra compassada e pungente fazendo a cama para Linari declamar que a vida talvez deva valer quase um Chevrolet, mas no final das contas o teu disfarce cai (e trai).
(2003) Desconhece O Rumo, Mas Se Vai
Desconhece o Rumo Mas Se Vai é o som que abre e dá título ao cd. Outro grande candidato a clássico lacarneano, além de nos proporcionar prazerosos longos 7 minutos da mais pura poesia e energia lacarneana, tem como destaque a incrível linha melódica e precisão das 4 cordas empunhadas por Carlos Remontti que se responsabiliza em segurar por todo o tempo a obra sem deixar em momento algum a peteca cair. Estamos ouvindo o cd, mas é incrível notar a calma e naturalidade desta banda tocar ao vivo linhas complexas. Creio ”maturidade” ser a resposta. É Baderna chega chegando, chutando a porta e o que mais tiver pela frente. Faixa integrante do filme Pixo de 2009 dirigido por João Wainer e Roberto T. Oliveira, ironiza a ação de força de corporações submissas a um governo tardio e retrógado contra manifestações populares, fato bem comum em países em desenvolvimento tal qual o nosso. Isso tudo sem citar a força da própria música que inova trazendo trechos vocais gravados ao contrário, criando uma imagem como se fosse o próprio cramulhão que estivesse dando o seu aval pra bagunça generalizar-se. Sábias palavras do sábio Linari: “Prendam todos e enforquem os poetas”.Estamos falando de praticamente 15 anos de muita história pra contar, segundo os próprios: “muitas risadas, algumas lágrimas, amigos feitos, roubadas, escândalos, noitadas, enferrujados spots de luzes coloridas, orgulho em fabricar artesanalmente nossa própria obra sem pressões ou concessões, orgulho em tomar as rédeas da nossa própria história, orgulho em ter fãs tão fabulosos, anônimos como nós”. Sim gurizada, os fios brancos trazem sabedoria, serenidade e plenitude. Aí você pega tudo que absorveu em 15 anos de estrada e comete uma obra-prima, um “masterpiece”, um “chef-d’ouevre” como dizem lá, e lhe designa muito propiciamente a alcunha de Granada, primeiro disco da banda a incorporar outros instrumentos fora a santíssima trindade baixo-guitarra-bateria (há teclados, violino, percussão e sanfona), são 12 faixas que soam como carne crua e sangrenta jogada num ventilador industrial em velocidade cinco, ou seja, clássico total!
Não há muito o que se dizer sobre uma obra-prima, palavras em demasia aqui denotarão uma pretensão que já foi longe demais só em arriscar-se a resenhar a discografia por si só. O que dizer sobre uma obra repleta de clássicos absolutos que começa de cara com a singela frase “Contracorrente desde sempre baby, contra os abutres que devoram devagar”, ou da linha de baixo “cavulosa” de Carlos Remontti na faixa-título Granada enquanto Linari, ao ver um anjo e um demônio, questiona: “qual de vocês veio me levar?”, ou da imagem tarantinesca provocada por Malasuerte em sua lenda ibérica rechaçada de loucas vozes dissertativas ao fundo, ou da guita sinistra que Jorge Jordão comete na fantástica Blues dos Seus Absurdos em conjunto com a batera socada de Chicão que lembra mais um trator desgovernado certo e convicto de seu rumo, ou da brisa que Decida provoca enquanto o mundo lá fora, sujo e cruel, me leva a te buscar. “Ponha seu melhor vestido baby, bora fazer um Sambakaos completamente insano e atonal!”, diria o poeta.
O que falar sobre a irônica Tratadus Pilantrae (T.G.P.) que se tornou a melhor imagem da política contemporânea brasileira e seus meandros “nhém-nhém nhém-nhém nhém-nhém nhém”, ou sobre a espetacular Vergonha na Cara que se tornou hit instantâneo (La Carne com hit?) desde quando os caras a tocaram inteira pela primeira vez ali no ensaio deles em Osasco, ou sobre a onda que tiram com a atravessada-mãe-de-todas-as-outras em Ancestrais, ou sobre o recado que receberam de Jean Charles (R.I.P.) e Iggy Pop ambos afirmando categoricamente que Londres Está Uma Merda (é muito clássico prum disco só!) e efetivamente pessoas informadas sabem muito bem hoje em dia de tal verdade, ou sobre a treta (também brisada) descrita em Olhos Escuros sobre aquele casal mundano que, no fundo no fundo, a gente tá ligado que eles se amam pacas, apesar do carinha estar nitidamente de 4 pela mina nervosona, ou sobre a camaria final trazida pela reservada sanfona de El Sid – um breve farewell pra tua cabeça (tentar) assimilar a quantidade absurda de verdade e soco no estômago que acabou de ser despejado em você durante os últimos 48 minutos e 15 segundos de sua reles e vil existência.
Digo e repito: de obra-prima não devemos falar nada. Apenas calar, ouvir e aprender. Long live fuckers! Long live Laca!
