segunda-feira, 26 de julho de 2010

FAIXA-A-FAIXA: JANE DOPE - EP (aka As 4 Na Augusta)

Texto: Cris Tavelin

Azul dopado

Nas artes plásticas, o azul, dependendo de sua tonalidade, é a cor da tristeza. Vide Picasso na sua fase mais intimista e bela. E não por acaso, no mundo indie de Jane, seu EP debutante se veste dessa cor. Com seus altos e baixos, entre a empolgação de sábado à noite e a ressaca da manhã de domingo, as músicas contam pequenas histórias de sensações perdidas nesse meio tempo. Porque depois de qualquer final de semana, voltamos todos à solidão de nós mesmos. “Sadness is my lover” é a primeira frase que se ouve.

Um tanto tensa, Sadness é chapada por si só, sem droga nenhuma. O backing vocal grave que se sobrepõe à voz feminina doce no decorrer da música soa quase como a abordagem de um estranho bêbado na madrugada, cercando alguma personagem a vagar solitária pelas ruas. As guitarras limpas caem perfeitamente bem e evidenciam um ar de nostalgia anos 80; entre a calmaria e o desespero, as notas remetem a flashes noturnos, ofuscantes e desfocados. O aumento da intensidade acaba por morrer na continuidade pós-punk repetitiva: “Sadness is my lover, Sadness is my lover”. Não há mudança. Não há esperança nenhuma.


Na sequência, um violão-balada chama a segunda faixa, Homeless Duck. A bateria segue num ritmo grave e os efeitos de guitarra dão um charme ao contexto. Melodia mais simples, sonoridade mais pop, nessa faixa tem-se a impressão de se saber aonde vai. Mas só quem a ouve sabe do próprio destino, porque Duck está louco e desabrigado. “Kiss me Kiss me” é um momento que poderia soar até fofo em seu desespero, mas logo é interrompido por uma melodia estranha. Pobre Duck, com o corpo pontilhado de bolinhas brancas na capa do EP. O instrumental acompanha sua história e a sonoridade revela uma certa decepção patética, um desapontamento com a vida, uma boa dose de carência – e a necessidade de uma boa dose de qualquer coisa para aguentá-la.

Em HAT (High Alterated Temperature) um aspecto que já está em destaque a essa altura do EP são os ótimos backing vocals da banda - novamente a Jane aposta no contraste entre a voz feminina doce, quase sussurrada, e os graves que criam um clima soturno, meio irônico. A atmosfera é tensa o tempo inteiro - nessa música a sensação permanente é de que algo irá acontecer, mas não se sabe o que. Ponto alto do EP. Na melodia marcante do refrão a banda se encontra.

Para fechar, temos a acelerada No Guilt. Os espaços do instrumental – sustentados apenas pela bateria - são interessantes e a voz sutil que o acompanha mal se sobressai, o que cria um efeito interessante, faz o ouvinte ficar mais atento e curioso em relação à letra, diferente da maioria das canções que seguem esse estilo. A mudança no andamento traz algo de Sonic Youth em si e deixa a música lenta e arrastada no melhor dos sentidos - como se fosse o desfecho dessa história contada nas entrelinhas, a volta pra casa de tantas sensações conectadas e confusas. O retorno a um andamento animado e sua quebra fecha de forma abrupta o EP.

Com esse final, só resta dizer que a Jane tem um andar peculiar e passa por todas as delícias e agruras da vida em uma noite: ela caminha entre a crueza da sanidade e a delicadeza da loucura.

4 comentários:

  1. UAUU!! MANDOU BENZAÇO, CRIS!! Não sabia que vc escrevia tão bem assim!! =) Muito BOM!

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  2. demaaais cris!! agradecemos de coração em nome da puta-jane suas belas palavras!!

    a puta é realmente interessante... creio que ela ainda não mostrou sua verdadeira face, não que queira dar uma de camaleônica, mas acho que o lance é bem mais simples... tipo, uma trepadinha já resolve, saca?! kkk

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  3. ahh, mas as coisas mais simples são as mais interessantes ;)

    tô curiosa pra ouvir a sequência desse EP, pelo que vi e ouvi nos shows vai vir coisa de primeira!

    e eu que agradeço a vocês o espaço e a confiança pra escrever sobre o debut da sweet Jane!

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  4. Parabéns à Cris pelo texto, muito bem escrito, e pra Jane Dope, minha puta amada!

    : }

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