sexta-feira, 23 de abril de 2010

REVOLUÇÃO INTERDEPENDENTE

Texto por Juliano Jubão

Está rolando uma discussão na lista Uai Rock (que em breve mudará de nome pra UAI Música) em que postei o seguinte texto:

Só reverteremos a nossa posição de oposição para situação com muito trabalho organizado.

Por enquanto, por mais que tenhamos uma lista e já estejamos conversando, é só um primeiro passo! Acho que desde que comecei a militar pela música (e olha que isso foi a mais de 10 anos atrás), eu repito a mesma frase: Se você não frequenta o show dos outros, como espera que os outros frequentem seu show?
Claro que tem a tal resposta de que não precisamos frequentar shows que não gostamos.
Mas aí entra a posição de que não podemos tratar mais a música somente como música, somente como arte. Precisamos sim de ser músicos politizados. Se realmente quisermos revolucionar a cena e abrir espaços, teremos de fazer de forma organizada, ou então a situação sempre será a mesma, um monte de gente disputando as migalhas das quartas feiras.

O primeiro fator que faz com que as casas não abram seus espaços pra música autoral é o público. Não adianta falar que os donos de casas são uns capitalistas, os caras, assim como nós, precisam sobreviver. Assim como o pessoal que toca música cover. Acho que temos de ver esses caras com outros olhos, radicalismo não leva a nada. Se um dia eu souber que tem uma banda fazendo cover de uma música minha, eu ficaria mega lisongeado. No início do Pegada, a gente estava fazendo isso; o Stereotaxico tocou Cla Clá da Aldan , o As Horas tocou Ferris Whell da Hell's Kitchen, a Hell's tocou Velho Buk do De Kits . Enfim, tem gente que toca cover porque tem o mercado aberto (todos precisamos pagar as contas) e tem gente que o faz porque gosta(esses sim são o maior problema pra mim, pois a grande maioria é formada por pessoas que não querem chegar a lugar nenhum, tocam somente pelo prazer de tocar).

Então, nossa briga é tanto com o mercado quanto com a cultura. Só que os dois estão ligados diretamente. Só mudaremos o mercado o dia que o público tiver a cultura de ouvir música autoral. A grande maioria das pessoas só vai ouvir música autoral no dia que o mercado oferecer isso pra elas.
Então temos a seguinte situação: O jazz tem seu reduto, o cover também. Temos também nossos redutos: Matriz e quartas feiras de Obra, Butecando, Conservatório entre outros. O fato é que nossos redutos não comportam mais a quantidade de bandas. Temos hoje mais bandas que público. Voltando a velha frase: se todo mundo fosse no show de todo mundo, todo mundo teria público. Somos todos interdependentes nesse mercado.

A algum tempo já vimos discutindo isso na lista UAI Rock, mas o fato é que ficar somente filosofando se é certo ou errado tocar música cover, não chegaremos a lugar algum, e como disse, todos roendo o osso de quarta feira!

Temos de começar a trabalhar propostas pra que o mercado seja interessante para o autoral. Reclamar não muda nada, só aumenta a insatisfação.

Já começamos aqui a produzir conteúdo através de nossas discussões; agora, como vamos produzir público pra que esse mercado fique mais atraente pra casas e pra bandas?
Nosso problema não é ter bandas covers tirando nosso espaço. Na verdade, o espaço sempre foi deles, foi construído assim, e somos nós que queremos tirá-los de lá! Acho que é meio xiita ou xenofóbico acreditar que esse é o motivo da música autoral não vingar. Nós não vingamos porque talvez, nossas estratégias talvez estejam erradas.
Claro que pra definirmos estratégias temos primeiro que definir o conceito, e pelo visto ainda estamos longe de alcançá-lo...

Depois do conceito, precisamos ainda de pesquisas, números e tudo mais. Temos de traçar o perfil do público, saber os valores arrecadados, dentre outros. Já disse isso antes, mas conhecer o problema é metade da solução (talvez mais da metade), aí pergunto:

Qual é o problema?

Ao analisar certos discursos, os problemas que encontro são:

-Os covers estão tirando nosso espaço.
-Não temos espaços pra tocar.

E algumas outras ligadas a espaço. Mas o fato é que se tivéssemos mais espaços, a situação talvez não estivesse tão melhor.

Pra mim o problema é: Não temos público.
E pra vocês?



6 comentários:

  1. Ótimo texto. Já estamos há tempos discutindo isso. Lembro até da discussão lá no meu blog.

    E são muitas teorias. E como diz no texto, localizar o problema é metade de solução. O resto é fazer e participar. Se fizer e participar de forma ordenada, organizada, melhor ainda. O bagulho evolui.

    E quanto a covers, tb já falamos disso, a parada é outra, a proposta é diferente. Não é certo nem errado. E creio que uma coisa não interfere na outra.

    O bacana é estar na cena pq gosta do lance. Eu adoro as bandas de Mogi e não vejo diferença em um show no Campus e no Divina prum show com bandas famosas e grandes, em grandes cidades. Tenho banda pq gosto de fazer música. E vou nos eventos pq gosta das músicas feitas aqui.

    Abraços!

    ResponderExcluir
  2. Muito bom texto, parabéns a quem escreveu!

    No fim todos que querem contribuir para o cenário cultural, buscam o mínimo de reconhecimento, nem que seja pelas próprias bandas.
    E sim... (essa crise)infelizmente acontece em todo lugar... várias bandas, algumas mais humildes, outras mais estrelas, mas todas começam pelo único motivo: de querer fazer o que gosta, se não nem conseguiriam fazer música. Enfim... Vejo muitas bandas querendo fazer sucesso em outras regiões, e claro que isso seria ótimo para bandas autorais. Mas se elas próprias não fazem pela "cena" de sua própria cidade, já dá pra saber bem diferenciar o que é contribuir, do que é puro interesse em apenas se divulgar.
    Eis aqui minha ideia...

    Se na maioria das vezes nem as bandas se unem, fica difícil lutar pelos ideais.
    União, talvez falte isso. De certa forma, a cena como um todo não é unida. Depois disso, uma reforma radical! Uma revolução interdependente :)

    ResponderExcluir
  3. Boa discussão essa...
    acho que o estilo musical também contribui para essa ausência de público. A cultura do rock no Brasil é recente em comparação a outros segmentos, e talvez as pessoas ainda não tenham o hábito de sair de casa para assistir uma banda não-famosa e ouvir algo nunca feito antes.

    Sobre aqueles que fazem cover, apenas tenho pena pela limitação criativa; reproduzir o que os outros já fizeram é uma perda de tempo em termos de arte.

    (p.s. valeu pelo comment no blog Regis e queria registrar a minha felicidade por ter ido ao show de sábado, que evento bonito cara! Time de primeira tocando tb, daí fica fácil, Jane, Glass, Seamus detonaram!)

    ResponderExcluir
  4. Muito pertinente o texto do Jubão. Eu penso o seguinte, cover realmente atrapalha a música autoral, pelo menos na realidade onde trabalhei percebi isso. Tive a oportunidade de presenciar no bar Campus 6 os dois seguimentos, e a preferência da maioria é, sem dúvida, o cover. Eu sempre bati na mesma tecla "se as bandas que são 'coversadas' ficassem só no cover o que seria tocado hoje?
    A maioria que diz gostar de música quer algo de fácil digestão, por isso optam por bandas covers, tanto que os repertórios variam pouquíssimo e ninguém reclama!
    Por outro lado temos de ficar atentos ao "autoral" onde bandas fazem seu próprio som, mas completamente plagiado de bandas famosas (principalmente as que estão em evidência).
    Nós insistimos na correria com bandas autorais e até hoje, mais de quatro anos de trampo, graças ao bom deus, não tivemos decepções. E continuamos com a correria, aliás, só continuaremos, hoje já contemplamos uma condição em que o público está se formando, pequeno ainda, mas consistente.
    O ponto apontado no texto, a respeito da necessidade das bandas assistirem às bandas, é extremamente correto, isolamento só gera isolamento...

    Vamo que vamo!

    Elmo

    ResponderExcluir
  5. Olá a todos,
    na verdade, não acho que o cover atrapalha a música própria. O lance é na verdade cultural. Temos de trabalhar o público pra que a galera procure mais inovações!
    Abraço mineiros!
    Juliano Jubão
    http://myspace.com/bandacurved

    ResponderExcluir
  6. esta ação de trabalhar o público é o que fazemos enquanto coletivo, selo e bandas... ao mesmo tempo em que sinto-me completamente realizado quando uma alma perdida chega e me diz: "cara, não tinha idéia que existia esse circuito autoral... vou começar a acompanhar!", sinto-me também por muitas vezes incapaz de salvar aquela outra alma "perdida" que é manipulada pelo cover mais-do-mesmo... mas como não sou nenhum tipo de salvador e, como o próprio jubão deixa claro acima, o lance (além de cômodo em vários aspectos) realmente é cultural...
    portanto o trabalho vem sendo feito, resta a conscientização, bom gosto e (muita) vontade do público mesmo -> o que muitas vezes não vemos nem nas próprias bandas autorais, como já citado...

    ResponderExcluir