



Eis que se rasga o sachê. A mostarda suja a partitura e um novo rebento nasce sob o holofote da não-vaidade. Eis que se amplifica a dissonância da essência do universo, a microfonia da alma. Vestido de sua verdade e vontade, dá as caras, transgredindo em ideias e ações para a circulação e exposição do novo, seja na música, seja nas artes em geral. Eis o coletivo Bequadro Mostarda.




CENA 1: A PREPARAÇÃO
12h. Foi em frente ao Yázigi em Mogi onde me encontrei com o Henrique Resek sábado último, nublado, típico do início da primavera. Foi na casa do mesmo que pegamos Thania Deise, sua mochila e os formulários de justificativa que teoricamente necessitaríamos para o domingo vindouro. Foi no caminho para Suzano que tudo parou pela primeira vez, por causa do asfalto recapeador e, por que não, eleitoreiro. Mas essa informação a gente procura abstrair. Quase 1h depois, chegamos são e salvos e sem quaisquer sinais de piche para pegar Andrea Marques e Zé Ronconi. O Coletivo Bequadro Mostarda estava pronto para seguir estrada rumo a Belzonte, mas quem iria tocar era Maquiladora e Jane Dope, ambas em trio. Sacou?13h30. Chuvinha fraca & tempinho bunda. A rádio que noticia (do verbo ‘noticiar’) o trânsito avisa logo de cara que uma carreta tombou na Fernão Dias, mas a gente é rockeiro teimoso e tudo corre suave até Mairiporã, onde damos de frente com a tal carreta sendo desvirada pelos amarelinhos da concessionária. Visão ácida que causou a segunda parada. Vimos até um “minduim” (designação mineira para ‘policial’) da rodô federal ali em cima do morro intencionando talvez brincar de escorrega no papelão morro abaixo, vai saber. 15h no relógio, muito bate-papo e bom som fizeram a trilha sonora da última ligação recebida em território paulista. Tratava-se de queridíssimos bêbados da noite anterior e groupies tresloucadas da Jane e da Maquila que insistiam na boa e velha máxima: “Boa Viagem e vão com cuidado!”... é muito amor PLOC PLOC agregado, coisa linda. Alguns postos adiante, conversas sobre artistas (e seus cigarrinhos), vinhos, muitas risadas e alguns planos para a dominação do (sub)mundo foram tema constante da “road trippin with my favourite allies”. Quando a companhia é boa, a trip é agradável e não haveria como ser diferente. 21h foi o horário em que já estávamos na Av. Amazonas rumo ao Bar Matriz, na aprazível Belzonte.
CENA 4: IV BH INDIE MUSIC NO MATRIZ
A noite terminaria e começaria com bandas locais. A Bilbel que fechou a noite fez um som bem calmo e melódico remetendo a Doves e Verve e a Pão de Queijo On The Road (nome genial) que abriu a noite, brincou com influências regionais de vocais em português e inglês e que agradou bastante com seus 6 integrantes e sua grande flexibilidade rítmica. A segunda banda foi a ótima Babi Jaques & Os Sicilianos de Recife que deu um clima “Poderoso Chefão” ao ambiente, não pelos sons quase que ‘jazzados/rockísticos’ mandados por eles, mas pelo visual impecável de seus integrantes. Coisa fina. E na vibe Alto-Tietê tocaram coladinhas as 2 bandas suzanenses convidadas: as mogianas Jane Dope e Maquiladora, tudo em power-trio.O set da Jane Dope teve algumas surpresas – sim, a puta foi carregada de preservativos pra Beagá: logo no início do set a cena bizarra da noite: um ser “popozuda” apareceu bem no começo, no meio da gurizada, rebolando passos funk descarados e roçando o “popozão” na barra que dividia o palco da galera... disseram que a puta (no caso, a Jane) teve orgasmos múltiplos com a cena da popozuda, mas devo ter perdido essa parte... boa surpresa foi o primeiro show com o novo baixista Zé Ronconi (na verdade ele é um puta baterista, mas o menino anda respirando outros ares) que segurou de boa a parada toda com uma suavidade natural de dar gosto pra mamãe. Outra parada muito legal que rolou com a puta foi o convite feito, lá pelo meio do set, ao nosso brother Juliano Jubão (leia-se Curved, Coletivo Pegada) pra subir no palco com sua guita pra fazer junto conosco a HAT e da Sadness, uma participação especialíssima assim tipo presentinho de níver. Taí Jubão, chupou a puta gostoso! Ficou pra história desde sempre...
Já para a Maquiladora, tocar pela 4ª vez em Minas foi a própria tranqüilidade imperante e a certeza de que todos que estivessem distribuídos pela casa, ficariam na beira do palco babando pela beleza musical proporcionada por Andrea, Thania e Henrique – esse power-trio infernal que rodou mais de 650km pra chegar em BH e teve a manha de fazer um set apenas com músicas novas (digo e repito: MUD é a próxima Too Much Wine!), mesmo tendo uma discografia de 3 cds nas costas. É claro que a Thaisera faz falta pra caraleo (dizaê, Cris!), mas enquanto ela estiver na Berkley, esses 3 guerreiros do rock vão continuar dando seus pulinhos e encantando todos ao seu redor, fazendo com que todos lhe sigam no melhor estilo “Flautista de Hamelin”.
4h30. Fim de festa, empanturrados de lasanha e coca-cola (Malu Aires, a idealizadora do BH Indie, nos tratou muitíssimo bem, obrigado, e publicamos aqui nossos mais sinceros agradecimentos) rumamos para o Formule 1 aonde uma dezena de coisas iria ainda acontecer até umas 7h: check-in & check-out Maquilático com 2 putinhas “convidadas” pra subir no quarto, participação tardia de Serginho Mallandro, rá! em banho noturno, estrondos do trovão que impediu o sono coletivo, socos na parede indignados de uma mente cansada e o feto de ET abortado pelo nariz privada adentro... cenas corriqueiras, enfim.
CENA 5: JUSTIFICANDO A OBRIGAÇÃO & A ESTRADA (Parte II)
Andrea - Às vezes introspectiva, às vezes falando, com sua fiel companheira, a "bombinha Alenia", enfim: Andrea!
Regis - Excelente companhia para uma viagem dessas! 14 horas ininterruptas de constantes conversas incessantemente intermináveis até o destino final, no maior estilo ‘se eu não durmo ninguém dorme’.
Zé - Não vai dormir muito, mas se dormir, ouviremos o ‘Estrondo do Trovão’
Thania - ZZZzzzzzZZZZZzzzzZZZZZzzzzzZZZzzzz, afinal, não há Regis que a desperte!
A festa ficará por conta das bandas Maquiladora e Glassbox. Não deixem que o clima os prendam em casa: é sábado a noite, a balada é confortável e as bandas espirram magma a cada som emitido. Frio você não vai passar, posso garantir! Vai fazer o que? Colar no pagodinho que rola alí perto da praça? Faça-me um favor...
Outro lance que rolou na noite faz menção direta à Maquiladora que fez sua primeira apresentação também como power-trio (será uma tendência?) onde mostrou toda a versatilidade que esta formação mais enxuta permite num setlist rápido de 6 sons onde todo o material anterior fora suprimido em prol das novas composições, já visando este formato em trio, e isso parece ter feito muito bem para a banda, pois as músicas estão partindo para um terreno mais experimental onde elementos e divisões (principalmente rítmicas) que eram impensáveis há tempos atrás, aparecem como uma fluência natural no curriculum da banda. Tenho uma palavra simples que acaba sintetizando de uma forma bem mais prática o que está acontecendo com a Maquiladora: maturidade.

Enquanto uma galera contemplava as capturas dos fotógrafos Stéfano Martins, Carol Ribeiro e KBÇA Corneti que descansavam perto das mesas de bilhar, os rapazes sangue bom da carioca El Efecto preparavam o palco para o que estava por vir. Um verdadeiro caldeirão musical coberto de referências que vão do ska dos anos 60 ao barulho pesado dos anos 90, tudo isso temperado com muita cor de tonalidade sonora e conteúdo lírico 100% brasileiros. Agrega-se à formação clássica rocker (guita, baixo, batera) um cavaquinho, trompete e até flauta doce que fazem toda a diferença nos links em que são inseridos e tudo funciona perfeitamente bem na estética da banda. Foram muitíssimo bem recepcionados pelo público local que recebeu em troca ótimos souvenirs cariocas, que foram os sons da El Efecto.
Mais uma pausa pro chiclete quando a inacreditável Vincebuz solta suas primeiras notas que levam a epifania coletiva a entender finalmente a razão de se colocar dois bateristas, um de frente para o outro (de lado para a galera), utilizando-se do mesmo bumbo, no sutil palco da Óbvio. Arriscaria dizer que foi uma catarse controlada com base nas expressões que vi das pessoas presentes, tipo saca aquela vibe de assistir aquele filme lado bezão sabendo que o filme é bom demais, que o diretor é fodão, mas que você só não foi ainda porque não estava passando na sua cidade, saca? Porém Vincebuz é muito mais que isso, é (muito) peso, é (muita) viagem, é (muito) ruidinho, é (muito) efeito infernal, é (muito) bom enfim.
E fechando desta vez, a local Hit Cinema Show mostrou um set bem conciso com sua atual formação (são 6 malucos em cima do palco mermão, vai vendo...) onde seus sons de eflúvios hardcore e metal se misturam com naturalidade a expoentes máximos da boa música contemporânea, como no caso de Inner Vision do System of a Down, versão muito bem executada pelos Pindenses que inclusive estão com um trabalho bem bacana de vozes.

Pessoal de Mogi apareceu em peso, como também uma boa galera de Pinda, além de um povo de Sampa. No final é tudo “rockerada-irmão”. Graças a essa gurizada é que o Festival Lumière continuará firme e forte, rondando e sondando novos e tradicionais picos e bandas. Aí quando você menos espera já são 5 da manhã, tudo acertado, todos felizes e com sono, comendo o bom e velho x-salada noturno, quando repentinamente um trecho lhe vem à cabeça, e a risada sequelada será inevitável:
“Português herói, navegante é o Cabral
Para tudo terra a vista, o bonde segue sua nau
Segue sua nau, o bonde segue sua nau
Segue sua nau, o bonde geral na nau...”

