segunda-feira, 9 de agosto de 2010

RESENHA: VIOLETA DE OUTONO @ TEATRO VASQUEZ – MOGI DAS CRUZES - 05/08/2010

Texto: Regis Vernissage
Fotos: Giovana Machado & Regis Vernissage

Eis que pela segunda vez o seminal Violeta de Outono faz outra apresentação histórica na cidade do caqui e dos cogumelos comestíveis. Há 4 anos atrás, mais precisamente no dia 09/06/2006, o conjunto esteve na cidade durante a divulgação do seu 6º trabalho chamado Ilhas - lançado um ano antes – no mesmo Teatro Vasquez, apresentação essa devidamente resenhada aqui. Desta vez fizeram um show de pré-lançamento de seu 8º álbum Espectro, onde se pôde perceber claramente a tendência progressiva que a banda vem trilhando.

Logo após uma rápida entrevista concedida com exclusividade para o Bequadro Mostarda (Quer ver? Vá até o final desta resenha, oras) eles subiram no palco para um banho de “psicodelia progressiva” (odeio rótulos) para uma platéia absorta de aproximadamente 50 pessoas, diria sortudos, que tiveram a felicidade de apreciar o “crème-de-la-crème” da vulgo psicodelia brasileira criada em fins do século XX que permanece “alive and kicking” em pleno século XXI. Instrumentos a postos, o tecladista (e também mogiano) Fernando Cardoso solta notas oriundas de seu espetacular Hammond que remetem diretamente a timbres que te fazem, como numa onda, navegar pelo melhor da psicodelia dos anos 60/70 na forma de uma introdução psíquica ao fundo da mente, logo emendada pelo riff esperto do cérebro do Violeta, o talentoso e gentil Fabio Golfetti. Era a inconfundível Outono, hit do primeiro ábum de 1987, que surpreendeu logo de cara e foi extremamente bem acompanhada de Declínio de Maio, esta última casando perfeitamente com o frio glacial que fazia nestas plagas e que tirou as primeiras lágrimas emocionadas deste resenhista babão e sentimental.


Em seguida mandaram a bela e onírica Além do Sol (do álbum Volume 7, de 2007), acompanhada de Cartas do álbum Ilhas, marcada pelos backing vocals “no ponto” do mais novo integrante da banda, o baterista Fred Barley, as quais arrancaram aplausos efusivos da platéia compenetrada e extremamente polida que dividia os prazeres noturnos de uma quinta-feira gélida. É importante frisar que desde o começo da apresentação, um telão situado no fundo do palco projetava imagens viajantes que pareciam metamorfoses moleculares, como se estivéssemos a bordo de uma micro câmera instalada dentro de um microorganismo aquático, ou sideral, em vida. Enfim, uma brisa bem “da boa” pra quem as contempla ao som do VDO.


Os próximos 20 minutos demonstrariam ser um show a parte. A primeira peça oriunda do novo álbum Espectro apareceu sob a insígnia de Ondas Leves, um tema calmo e etéreo que recebe a voz de Fábio Golfetti apenas após uns bons 3 minutos de execução e vai com o tempo crescendo até atingir uma progressividade tamanha conduzida pelo jazzbass preciso de Gabriel Costa, que abre espaço a um solo de guitarra extremamente harmonioso, completando um casamento King Crimsoniano “à trois” entre baixo, teclados e bateria até culminar, minutos mais tarde, num solo percussivo do batera Fred que serviu como deixa para os mais de 10 minutos da incrível Fronteira, também do álbum Volume 7 (álbum este que estava sendo distribuído na entrada para quem falasse a palavra “Espectro”). Esta emenda foi uma gema dourada para fãs da boa música a qual recebeu aplausos a altura da grandiosidade proposta. Acalmando o coração, impressionado pela incrível qualidade sonora, entrosamento e profissionalismo da banda, veio, do mesmo álbum, a calma e “gringa” Eyes Like Butterflies.




Grata surpresa recebemos sob a graça de Solstício (veja trecho acima), outra do novo álbum, que demonstra principalmente através de sua excepcional melodia, grande auto-referência à identidade do VDO excelentemente bem costurada com a verve progressiva na qual a banda vem trilhando desde seu álbum anterior. Solstício é coisa fina. Ainda mais quando seguida do eterno maior hit do VDO, Dia Eterno, executada com perfeição e com um tesão incrível, mesmo 25 anos depois. Dia Eterno serviu de gancho ainda para uma volta ao primeiro álbum. Imagina você sentado, chapando naquelas imagens incríveis do telão com uma qualidade absurda de áudio proveniente do palco, sendo convidado a uma viagem contemplativa ao jardim gótico e onírico do Violeta ao som da espetacular Noturno Deserto e de repente, quando você se dá conta, o jazzbass de Gabriel Costa te desperta numa sequência hipnótica de “rés & mis”, como um exército de Sombras Flutuantes te seguindo através da neblina da noite, enquanto Fernando Cardoso usa e abusa de timbres na teclas e Mr Golfetti ajoelha-se ante sua strato posta ao chão, brincando com os mais variados delays e efeitos, te teletransportando física e psicologicamente para os mais ácidos cantos profundos dos mais belos sonhos. E o auge da transposição se deu ao som de glissando guitar que serviu para apresentar a peça final, a já tradicional “Beatleniana” Tomorrow Never Knows executada impecavelmente, para o bem dos nossos olhos, ouvidos, corações e almas.


Teoricamente seria o fim, mas é claro que os presentes pediram bis, que veio surpreendentemente vestido de Syd Barrett (difícil quem não saiba, mas um dos projetos paralelos do VDO se trata de um Tributo ao Crazy Diamond, que celebrava a vida de Barrett, mas encontra-se hoje em estado de inanição desde sua morte repentina) em forma das pérolas seminais da psicodelia mundial Arnold Layne e See Emily Play. Incrível a perfeição com que o Violeta executa as obras do gênio (tanto fase Pink Floyd quanto carreira solo) como também os timbres vocais que se equalizam de forma surpreendente com as originais. Tipo, você fecha os olhos e se sente na Swinging London de 1967, saca?


Uma hora e quarenta minutos de pura lisergia para os nossos ouvidos. Uma lavagem nas nossas almas podres de rock reciclado feito nas coxas. Uma aula de melodia e bom gosto. Tudo isso facilmente encontrável em um show do Violeta de Outono mais perto de você. Eles prometeram voltar em breve, nos resta aguardar e torcer muito para que não se passem mais 4 anos de espera.

==Setlist==
Outono
Declínio de Maio
Além do Sol
Cartas
Ondas Leves
Fronteira
Eyes Like Butterflies
Solstício
Dia Eterno
Noturno Deserto
Sombras Flutuantes
Tomorrow Never Knows (The Beatles)

==Bis==
Arnold Layne (Pink Floyd)
See Emily Play (Pink Floyd)

*Até o final do dia entrará aqui o vídeo da entrevista exclusiva do Violeta de Outono concedida ao BM.

Nenhum comentário:

Postar um comentário